Gullar, o gato  – 23 –  A tocha olímpica passou por aqui.

Gullar, o Gato
por João Lardon

Gullar, o gato – 23 – A tocha olímpica passou por aqui.

Um camburão perseguia a tocha cercada por um batalhão de fatigados.

Na frente o cameraman de costas abria a multidão que queria ver o fogo.

Em pensar que essa chama nasceu nos primórdios sozinha vindo de um raio que caiu no mato.

Já iluminou cavernas, já espantou preguiça, já cozeu ovos e assou bolo de noviças.

Aqueceu as noites frias nos castelos, incensos nos templos, velas nas catedrais, afortunadas raclettes nos Alpes, lampiões a querosene em casebres.

Já pelou porco que virou linguiça que depois foi frita.

Destruiu cidades como Atenas, Roma, Londres e abriu roças.

Essa chama escreveu história.

Sem noção de que lhe espera fama quem tem vontade de só carregá-la.

Correu o mundo de ponta a ponta passada de mão em mão e explodiu pulmões que apagaram aniversários.

Retransmitiu ligação entre o visto e o inimaginável.

Transformou um dia em noite e um facho de estrada a procurar saída ou o culpado.

É guardada em segredo como centelha ou na forma de pavio incandescente.

Buscam os falsos incautos mantê-la acesa só para dominar-nos.

Nós, os gatos, e os muitos seres que não fomos convidados para a cerimônia oficial.

Já era tarde quando cruzou por aqui. Em frente. Na nossa rua.

A vi passar derrubando Luízas, sapecando Jumas, conduzindo paraplégicos, anões em sobressaltos, próteses de sovaco, palhaços dando risadas e limite à escuridão.

Sem ser compreendida, na arena será compartilhada sob muitos assopros e aplausos.

 

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