Gullar, o gato  – 24 –  Amanheceu uma baleia na areia de Copacabana.

Gullar, o Gato
por João Lardon

Gullar, o gato – 24 – Amanheceu uma baleia na areia de Copacabana.

Uma baleia amanheceu na areia da praia, hoje.

Encalhou, diziam uns.

Outros controlavam o pulso na nadadeira.

Daqui de cima vi quem acudia.

Sentado na janela calculei a quantidade de espetinhos que daria.

O salva-vidas organizava a fila. O espetáculo.

A galera atlética e a turística tiravam selfies da agonia.

Ela estava viva e eles ali morrendo de rir da cara deformada de esforço de tantos outros tentando empurrar na mão o bichinho gigante.

Ela sofria. Eles sofriam.

Não tinha trator de lixo que desse jeito de devolve-la ao fluido mar de protozoários que viemos.

Fazia muito tempo que eu não via tal cetácea cena na praia de Copacabana.

Uma ocorrência rara nestas areias desde que habito este apartamento de frente para o Atlântico.

Imagino-a antevendo as opções que tinha diante dos desidratados olhos.

Ser frita em pedacinhos.

Virar latas de banha e postas no pagode de aniversário da tua sogra.

Empestear com seu cheiro toda a orla da zona sul.

Ficar famosa na internetv por um dia.

Fazer parte da crônica da cidade que não lia.

Ser motivo de revolta.

Ser exposta esquelética num museu, voando.

Voltar para o mar e para a família que a viu fraquejar.  

Seguir o caminho do nada a declarar.

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