Gullar, o gato – 28 – Ouvir o órgão da barbárie –

Gullar, o Gato
por João Lardon

Gullar, o gato – 28 – Ouvir o órgão da barbárie –

Vou qualquer dia desses a esses subúrbios tristes ouvir tocar o órgão da barbárie.

O ronco do motor,

do estômago,

como meu cérebro que não dorme.

Eviscerado goela abaixo em uma refeição crua.

A tristeza é rude.

Nua de apelos.

É útil como mola propulsora até a mudança evolutiva para o farto mundo bariátrico.

Quem se acostuma com o choro artístico ou

com o mio pedinte,

não reconhece o que é viver sem palco.

Dividimos o mesmo morro.

Seja de caras ou de coco. Montinhos.

Eu no decimo terceiro andar na minha caixa de areia,

e o pelado preso ao passado, lá em cima, e ao meu lado,

e ainda sendo analisado pela contagem do senso.

Se já até inventaram a profissão de passeador de Cão,

porque de gente só na terceira idade?

Passeiam os velhos pelo calçadão.

Tenho pena de quem pensa que gato não pensa.

Demente vive só o sábio.

Olhando por esta janela me brotam temas esparsos e aninhados entre beijos de desgosto.

Em um gradiente extenso vamos nos degradando.

Gato, colírio para desocupadas.

Gatuno, que roubou a fiação e o asfalto.

Gatuno, o que ontem me fez o assalto.

Gatuno, o que pensa que sou otário,

e levou todo meu salário, de década, no voto e no gogó.

Quem sou eu que aceitei este pacto?

Por mais que a barriga cheia chie de estufada,

será que me enche de vez da solidão?

Resta a unanime beleza interior como nido.

E lá, todo mundo é feliz e lindo.

Porque aqui,

homens,

ainda somos todos iguais:

bichos.

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