Gullar, o gato – 32 – Morro de medo de injeção.

Gullar, o Gato
por João Lardon

Gullar, o gato – 32 – Morro de medo de injeção.

Morro de medo de injeção.

Sempre morri.

A assistente do veterinário me pergunta:

– Seu Gullar, você pode escolher em qual dos dois lados da bunda vai tomar a picada.

Bela escolha….

Eu louco para mandá-la tomar na dela.

É onde prefiro – penso comigo.

Mesmo assim eles me viram de lado.

Ela me segura as patas de trás.

As da frente segura meu dono, assim como me prende o pescoço com o cotovelo covarde apetando minha goela contra a gelada mesa de inox.

Eu, sempre muito educado antes de uma dentada, ofereço a outra nádega.

Quando, então, o doutor médico veterinário sem me avisar, me introduz o termômetro no ânus.

Não sei se é bonito falar assim e o significado de meu desesperado miado.

Mas, a grasosa senhora Mãe dele, ah!, esta sim. Ela sim!

Deve ter despertado lá no seu belo túmulo ibérico.

Tudo isso só porque eu não estou doente.

É só um preventivo – me dizem – uma consulta preventiva.

Só pra atestar que eu ainda estou vivo. Para o convênio e o nosso convívio animal. Entre especies.

Para quê?

Não bastava me chamarem por telefone?

Me enviarem um whats app?

Uma simples mensagem?

Me consultarem por face-time?

Se era só para perguntar minha temperatura?

Eu confirmava?

Dava a ficha.

Agora, preventiva?

Preventiva é a forma histórica de se tirar da ativa uma vida predestinada a nunca ser. Como a maioria.

Ser ou não ser se eu ainda nem cheguei a ser?

Como poderei sabê-lo se nem me deixam chegar a ser inteiro?

Um gato num mundo de desumanos.

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