UM RELATÓRIO PARA UMA ACADEMIA – FRANZ KAFKA

Zooliteratura
por FRANZ KAFKA

UM RELATÓRIO PARA UMA ACADEMIA – FRANZ KAFKA

Nesse conto espantoso, Kafka narra a história de um macaco, Pedro Rubro, que, tendo sido capturado por caçadores na África e levado de navio para a Europa, decidiu tornar-se humano, por perceber que essa seria sua única via de saída. Entendamos bem: o macaco frisa que não se tratava de um desejo de liberdade (esse conceito abstrato, metafísico, que só os homens são capazes de almejar), mas sim de uma imanente necessidade de encontrar uma saída. Preso em sua jaula no navio, o macaco só pensa em encontrar uma saída. E observa, dia a dia, os humanos, aqueles seres estranhos que vinham, por sua vez, observá-lo. Aos poucos, percebe que precisaria tornar-se um deles, para poder sair da jaula. Eis sua possibilidade de saída: tornar-se humano. Como? Ora, por imitação…

Imitação dos gestos, imitação da linguagem. O macaco aprende a ser humano cuspindo, fumando cachimbo, tomando aguardente e, finalmente, falando: “alô”. A repetição portanto, foi a matriz de seu aprendizado da “humanidade”. E o macaco a fez unicamente em busca de saída: “Repito: não me atraía imitar os homens; eu imitava porque procurava uma saída, por nenhum outro motivo.” (KAFKA, 1999, p.70). Depois de amestrado em Hamburgo, foi para o teatro de variedades, aprendendo cada vez mais e tornando-se uma notoriedade no mundo dos espetáculos.

“E eu aprendi, senhores. Ah, aprende-se o que é preciso que se aprenda; aprende-se quando se quer uma saída; aprende-se a qualquer custo. Fiscaliza-se a si mesmo com o chicote; à menor resistência flagela-se a própria carne. A natureza do macaco escapou de mim frenética, dando cambalhotas, de tal modo que com isso meu primeiro professor quase se tornou ele próprio um símio, teve de renunciar às aulas e precisou ser internado num sanatório. Felizmente saiu logo de lá.” (KAFKA, 1999, p.70)

E nosso herói símio afirma que, tendo passado por uma boa quantidade de professores, aos quais ele próprio pôde contratar com aquilo que ganhava em suas apresentações, conseguiu chegar ao nível de instrução de um europeu médio. Mas afirma também que não superestima os humanos e que não se transformou em um deles porque os admirasse; ao contrário, o fez buscando única e simplesmente uma saída para sua prisão. E se se mantém como humano isso se deve exclusivamente a um desejo de não voltar para a jaula.

Assim o macaco narra aos honoráveis doutores da Academia sua transformação em humano. Mas revela: no sexo, continua sendo um macaco:

“Se abranjo com o olhar minha evolução e sua meta até agora, nem me queixo, nem me vejo satisfeito. As mãos nos bolsos das calças, a garrafa de vinho em cima da mesa, estou metade deitado, metade sentado na cadeira de balanço e olho pela janela. Se vem uma visita, eu a recebo como convém. Meu empresário está sentado na antessala; se toco a campainha ele vem e ouve o que tenho a dizer; à noite quase sempre há representação e tenho sucessos com certeza difíceis de superar. Se chego em casa tarde da noite, vindo de banquetes, sociedades científicas, reuniões agradáveis, está me esperando uma pequena chimpanzé semi-amestrada e eu me permito passar bem com ela à maneira dos macacos. Durante o dia não quero vê-la; pois ela tem no olhar a loucura do perturbado animal amestrado; isso só eu reconheço e não posso suportá-lo.” (KAFKA, 1999, p.71-72)

KAFKA, F. Um relatório para uma academia. In: Um Médico Rural. São Paulo: Cia das Letras, 2010.

http://www.educacaopublica.rj.gov.br/biblioteca/filosofia/0032_01.html

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