A vida de Bob – 34 – O cachorro era o dono

A Vida de Bob
por Enilton Rodrigues

A vida de Bob – 34 – O cachorro era o dono

Filhos de pais separados, eu compreendo muito bem todos vocês! Isso porque, quando Haroldo e Viviane brigaram, lá pela 15ª vez (e isso antes de terem o primeiro filho de verdade), eles contrataram advogados para disputar a minha guarda. Sim, até o direito de ficar comigo – um cachorro! – foi parar na Justiça.

Haroldo argumentou que, como eu já vivia com ele antes do casamento, ele tinha o direito de ficar comigo. E assim, ganhou a causa.

E como bom galinha que era, dois meses depois da separação e da decisão da Justiça sobre a minha guarda, saímos de São Paulo e voltamos à antiga vida no Rio de Janeiro.

“Liberdade!!!”, gritava Haroldo, lado a lado comigo, no primeiro passeio pelo calçadão após a separação de Viviane.

Foi uma volta aos velhos hábitos. Assim como aconteceu com Viviane e com todas as moças que conheceu, Haroldo me usava para se aproximar delas.

“Oi! Que calor, né? Será que você pode segurar o meu cachorro e o meu chinelo, só um pouquinho, enquanto eu dou um mergulho? É rapidinho!”

Ai, ai… De volta ao velho truque do “segura meu chinelo, segura meu cachorro”. E sempre ele faz isso com as moças mais bonitas e com as caras mais inocentes que encontra na praia!

Antes do casamento com Viviane, Haroldo era tão especialista nesse golpe e tinha um radar tão afiado, que pelo menos uma das dez abordagens diárias rendia um número de telefone, uma conversinha mole à noite, um chope e, quem sabe…

Mas na maioria das vezes as moças, muito escoladas com os velhos truques dos azarões da praia, despachavam Haroldo de forma educada, mas muito firme. E nesses casos, quem ficava com beijos, abraços, carinhos e afagos era eu.

“Bob, você é quase infalível!”, era o que dizia Haroldo naquela época. “Se você for um pouquinho mais amistoso com as moças, esse truque vai ficar perfeito!”

Voltando ao presente…

Depois de ter vivido algum tempo em Sampa, me desacostumei com o calor dos infernos no Verão carioca. Rosnei pra ele. Tudo o que eu queria agora era voltar pra casa, pra ficar largado numa boa e velha sombra e água fresca, mas quem disse que ele entendia?

Mas parece que o tempo de casado havia deixado Haroldo meio enferrujado. Ele já havia abordado a 25ª moça e… nenhum número de telefone, nenhum papo mais extenso ou amistoso, nenhuma bola dentro!

E pra piorar, com umas cinco dessas moças, Haroldo gastou saliva à toa. Isso porque já havia chegado nelas mais cedo, no mesmo dia! E repetir a mesma fala com a mesma moça era um mico sem tamanho! Um fiasco…

Enfim, o gavião estava ficando velho e manjado, estava esquecendo as manhas, o feeling indispensável ao que ele mesmo chamava de arte da caça

Mas Haroldo tinha que achar um culpado, claro!

“Bob, você não é mais aquele! Cadê o meu bom e velho parceiro de caça? Você tem que aprender um novo jeito de cativar as meninas… Bem que dizem que cachorro velho não aprende truque novo…”

“Ih, sai dessa, parceiro…”, rosnei baixinho.

Foi então que aconteceu. Vi uma cadelinha ao lado de sua dona, bem na beiradinha, e demonstrei interesse. Haroldo espreitou rapidamente, avaliando o shape da moça no meio da multidão… e aprovou uma investida.

Chegamos à dupla que eu havia visto e farejado de longe.

“Oi! Que calor, né? Será que você pode…”

“Posso, sim… Bob, é você!!!”

“Vi-Vi… Viviane?!?”

“Mundo pequeno, né, Haroldo? Quer dizer que você voltou ao velho truque do ‘segura o meu cachorro só pra eu dar um mergulho’, é?”

“N-não, não é o que você tá pensando! É que tá calor mesmo! E eu precisava dar um mergulho de verdade!”

“E você não me reconheceu, Haroldo? Sua própria ex-mulher?!?”

“É que você tava de costas…”

“Sejamos francos, Haroldo. É que eu emagreci, né?”

“É, eu reparei… Tá mais… Hum… Gostosa…”

Definitivamente, Haroldo nunca soube mentir pra Viviane. Pra encurtar a história, ganhei uma namorada e aconteceu o que eu previa: o casal acabou voltando às boas – pelo menos até a briga seguinte!

Moral da história: quem disse que “cachorro velho não aprende truque novo”?

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