A vida de Bob – 35 – Mistérios

A Vida de Bob
por Enilton Rodrigues

A vida de Bob – 35 – Mistérios

Um mistério pairava sobre os homens da Família Matos, que descendia de um dos primeiros colonizadores da região da Nhecolândia, no Pantanal do Mato Grosso do Sul.

Terra antiga, de grandes enchentes, de gente ilhada até seis meses por ano, cheia de crendices. Região de mitos e lendas.

O fundador

Ninguém nunca soube de onde exatamente veio Raimundo Matos, o fundador daquela fazenda da região da Nhecolândia. Ele era filho adotivo de um casal de colonos.

No final do Brasil-Império, no tempo de Dom João Charuto, nada existia na região a não ser jacarés, piranhas, pintados, ariranhas, lontras, antas, tuiuiús, carcarás, caramujos, cupins, mutucas. Terra de sapos. E de mosquitos de todos os tamanhos.

Mas durante uma das maiores enchentes da história do Pantanal, o casal Matos, já na meia-idade, que nunca havia conseguido ter filhos, navegava em uma canoa quando um choro baixinho rompeu o pesado silêncio apenas pontuado pelo zumbido dos insetos. A mulher, que ouviu o choro primeiro, convenceu o homem a vasculhar uma ilhota flutuante formada por camalotes… e lá estava um bebê.

A todos que perguntassem, o casal dizia que o bebê Raimundo era um presente das águas. E contava que naquele dia, curiosamente, sem motivo aparente, uma onça negra os perseguiu durante léguas, nadando atrás da canoa.

A onça não esturrava; apenas miava lamurienta, parecia chorar.

E quando adulto, já posseiro das terras mais afastadas de qualquer cidade ou vila, Raimundo era sempre visto conversando sozinho. Eram diálogos inteiros. Um dia confessou à mulher dele ouvir vozes em sua cabeça. A mulher tinha medo de Raimundo Matos na lua cheia. Ele sumia por várias noites seguidas.

O bisneto

Quando criança miúda, Maneco Matos, o Cabeludinho, era deixado após as aulas no ponto de ônibus da estradinha precária, perto da entrada da Fazenda. Não tinha medo de animais; por isso, quando a mãe chegou, cinco minutos depois do ônibus, não achou nada demais quando ele contou ter visto um gato grande e preto do outro lado da estrada.

Dias depois, o menino contou à mãe que o gato preto havia atravessado a estradinha para cheirar e lamber sua mão, mas foi embora quando ela apontou na curva.

Na terceira ocasião, não havia ninguém no ponto quando a mãe chegou. Só o que se via era um sapato do menino. Não havia nenhuma alma viva ou finada na estradinha.

Bateu desespero, foi chamar o marido, os empregados da fazenda ajudaram na busca… E bem no meio do matagal, junto a um corixo, encontraram apenas roupas rasgadas, lancheira e mochila. E nada do menino.

Um vizinho ouviu falar que uma onça negra foi vista rondando a área. Houve mais buscas, caçadas e nada. Chamaram a polícia, ampliaram as buscas, nada. Aí, concluíram o pior. Fizeram um enterro sem corpo.

Até que, uma semana depois, noite alta, a família em luto ouviu leves batidas na porta. Com medo de assombração, se benzeram e quando a porta foi aberta… lá estava o menino.

Explicação sobre o que houve, ninguém conseguiu. Mas Cabeludinho, que passaria o resto da vida ainda mais calado que de costume e se tornaria escritor, contou que passou alguns dias na mata, brincando com um gato preto.

O trineto

Tiago Matos quer ser guia de Turismo. Afinal, a criação de gado não é mais a única fonte de renda da fazenda da família e ele quer aperfeiçoar o que faz desde pequeno: guiar pessoas de todas as regiões do país que visitam a região.

Na fazenda dos Matos, pratica-se o Ecoturismo. São organizadas expedições para fotografar catetos, carcarás, tatus, emas, cabeças-secas, tamanduás-bandeira e até onças e um ou outro lobo-guará. E como a caça é proibida, as presas vicejaram e tornou-se muito raro um predador atacar o gado.

Mas de uns tempos pra cá, Tiago andava falando sozinho pelos cantos, suando frio, vomitando com frequência. Até que, quando a namorada se afastou dele, com medo, a situação piorou. E meu amigo Tiago sumiu sem deixar vestígios.

A família organizou buscas, levando junto os cães da fazenda. Em tempo de seca, com muito mais terra firme disponível em tantos quilômetros quadrados, nem as mais de cinquenta pessoas envolvidas na missão conseguiram encontrar qualquer sinal do rapaz.

Alguns dias depois, à noite, longe da luz da fogueira do acampamento, os cupinzeiros fervilhavam com a luz fosforescente das larvas de besouro. Parecia até que as estrelas do céu deixavam cair gotas de luz neles.

Estávamos próximos ao Boqueirão, lugar de onça. E eu podia sentir o leve cheiro de uma delas nos arredores do acampamento.

Tocavam uma modinha com uma viola de coxo, o papo em volta da fogueira era animado e ninguém parecia se dar conta do ronco baixo e grave, que gelava a espinha e eriçava os pelos da nuca dos cães. Os cavalos também pressentiam o perigo; amarrados, eles se agitavam e mostravam o branco dos olhos maior que o normal.

Evitei olhar para a fogueira. Espreitei a mata e procurei acostumar a vista à escuridão em volta. Não ouvia mais nenhum ruído, mas vi olhos brilhando como brasa acesa na escuridão.

A leve brisa trouxe um cheiro de gato grande e os outros cães, ainda ofuscados pela luz da fogueira, passaram a latir.

Tive a impressão de ver um vulto correndo, dando a volta, evitando o acampamento, e fui atrás. O cheiro de onça estava forte, mas o vulto era familiar. Lutei contra todos os meus instintos que gritavam para que eu não me aproximasse, mas valeu a pena. Encontrei Tiago, que me ameaçou com a língua dos grandes gatos, antes de me reconhecer e se acalmar.

Voltamos ao acampamento e foi uma festa.

Os médicos diagnosticaram esquizofrenia e medicaram o rapaz. O diagnóstico levou a família a acreditar que os sintomas da doença, hereditária, davam um novo sentido às velhas histórias de família jamais explicadas.

Mas até hoje lembro do cheiro de onça em Tiago.

Que me perdoem a Ciência e os céticos; prefiro acreditar nos mistérios…

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