A vida de Bob – 36 – A balada do Rei Peru

A Vida de Bob
por Enilton Rodrigues

A vida de Bob – 36 – A balada do Rei Peru

Era uma vez um peru de Natal

Era um bicho valente, aquele

Sempre empavonado

Encarava de frente qualquer animal do sítio

Botava a maior banca de chefe do terreiro

Cagava regras no galinheiro

 

Cabeça enrugada e horrenda

Peito estufado cara de mau

O peru era o rei da intimidação

Mas benfeitor de coração

Ele jamais corria de uma encrenca

E era sempre o primeiro a partir para a ação

“Reputação é tudo, meu filho!”

Dizia aos filhotes aquele peru empedernido

Com seu ar professoral

 

Eu era filhote e não sabia

Que o destino daquele peru solitário

Não era exatamente como ele pensava:

“Aqui hei de mandar e desmandar! Aqui vou formar uma dinastia!”

Dizia o peru que se autoproclamava Rei

 

Ele era durão e tinha a cara da monarquia

Mas as galinhas

Pitonisas tagarelas diziam

Que aquela majestade era transitória

Que o destino do Peru era ser Rei

Sim

Mas apenas por poucos dias

 

E na véspera do Natal, eu vi

Para horror das galinhas

E confusão dos filhotes

O peru estava com uma conversa estranha

O bico mole

E um bafo pior ainda

O Rei do Terreiro havia tomado posse de uma tigela

E ai de quem chegasse perto

Pedindo pra dar uma bicada

Naquele grande recipiente cheio de água ardente

 

Trôpego, o Rei Peru andava pelo terreiro

Discursando carrancudo

Uma mistura de padre bicudo com messias remelento

Com um papo maluco sobre o fim do mundo

Arrastando uma multidão

 

Ele afirmava enxergar o futuro

Pregava perdão e arrependimento

O primo Suíno riu do Rei Peru trocando as pernas

Mas então ficou pasmo com o que ouviu do penoso visionário

 

Até hoje todos lembram do “Sermão do Poleiro”

O Rei Peru falava de uma última ceia em uma longa mesa cristã

E de um ou dois sacrifícios

Como se aquela fosse uma festa pagã

 

O primo Suíno engoliu em seco

Relembrando antigos Natais

O trauma de ter visto sua avó

Em uma travessa

Moreninha como nunca

Na boca uma maçã

 

Aquele foi o último dia em que vi o monarca enrugado

E ouvi o seu glu-glu

Logo depois do “Sermão do Poleiro” ele se foi

 

Poucas noites depois,

Acreditei ver as profecias do Rei Peru

Se cumprindo bem diante dos meus olhos

O mundo enlouquecia com explosões e luzes no céu

Galinhas reclamavam que ovos tinham gorado

Os bichos corriam pra todo lado

Fazendo o maior escarcéu

Até tentei não dormir

Com medo de jamais rever a luz do dia

 

No dia seguinte à noite do fim do mundo

Felizmente o Sol voltou ao firmamento

Havia no ar lavado pela chuva um gosto de renascimento

Mas levou alguns dias para alguém me explicar

O que eram as festas de Natal e Ano Novo

E os restos da ceia que comemos

 

Só depois do banquete é que fui entender o discurso do meu pai

Em homenagem ao primo Suíno e ao Rei Peru

Às vezes

Ignorância é uma bênção!

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