A vida de Bob – 37 – O Grande Museu*

A Vida de Bob
por Enilton Rodrigues

A vida de Bob – 37 – O Grande Museu*

Meus olhos de cão já viram muita coisa. Guardo a memória da raça. E aqui nesse Grande Museu de História Natural, começam a ressurgir lembranças enevoadas de um tempo em que os homens não dominavam a Terra.

Foi-se o tempo em que as pessoas e nós, animais domésticos, vivíamos e morríamos dentro dos limites das cavernas e malocas. Foi-se o tempo. Naquela época, íamos dormir imaginando o que havia na escuridão, do lado de fora das cercas – os rugidos e ruídos transformavam animais selvagens em seres lendários, além da imaginação.

Hoje, graças à insaciável curiosidade humana, parece não haver muito espaço para o mistério além dos cercados. Está tudo catalogado, classificado. E um Grande Museu como este tem o poder de trazer de volta à vida aquilo que ficou soterrado pelas areias do tempo.

Aqui e ali, em grandes salões para os visitantes, estão reproduções de alguns dos grandiosos seres que dominavam o longínquo passado da velha Terra: dinossauros de todos os tamanhos e formas.

E há uma imensa coleção de bichos de um passado mais recente, quando cães e homens já andavam lado a lado: mamutes, mastodontes, rinocerontes lanudos, preguiças gigantes, tigres de dentes-de-sabre, antepassados de hienas, de tubarões, de tatus. Toda a megafauna reunida.

Mas a extinção progressiva das espécies atinge apenas animais que não se curvaram aos mestres do mundo, os chamados animais selvagens? Não…

Neste enorme museu, essa enciclopédia em 3D e em tamanho natural, há um setor só para primatas e hominídeos, aqueles a quem um dia um gênio chamado Darwin praticamente classificou como “rascunhos” da evolução humana.

Mas seriam os Homo Erectus, os Australopithecus, os Neanderthais e outros mais apenas “rascunhos” da futura “perfeição” do Homo Sapiens? E do passado canibal das tribos humanas, ninguém se lembra?

De uns tempos para cá, conforme a tecnologia avança, são encontrados sinais de canibalismo nos ossos dessas espécies anciãs. Neles, há marcas de instrumentos de corte e fraturas para a retirada do nutritivo tutano. Só falta dizer quem empunhava esses rudimentares instrumentos de cozinha, mas isso, infelizmente, ainda não é possível com a tecnologia disponível. Mas voltemos a assuntos mais amenos.

Obviamente que o Grande Museu tem ar-condicionado para dias quentes e aquecedor para dias frios. Tudo para que os visitantes não revivam o incômodo de seus antepassados, tanto da fervente savana quanto dos gélidos pólos.

O Grande Museu mais parece um shopping. E como é o dinheiro que move o mundo, tem até uma loja onde qualquer um pode comprar uma lembrancinha do mundo selvagem, hoje totalmente refrigerado e confinado em cenários que lembram grandes aquários.

São sets de todos os tamanhos, que podem chegar a uns trinta metros quadrados; isso se os animais empalhados forem grandes como os bisões. Tudo em tamanho natural. A ideia é fazer o público sentir um pouco do que foi o mundo de seus trisavós e tetravós, quando a natureza era selvagem e não tinha muros ou cercas. Em fiéis reproduções em tamanho natural, amostras de uma Terra que não existe mais.

Na exposição permanente das Américas, imponentes ursos pardos nos encaram. E apesar de empalhados, parecem bem vivos. Um pouco adiante, dois alces machos disputam os favores de uma fêmea, que observa o combate a poucos metros de distância. Além, em outro aquário, uma onça parda espreita a caça, um veado vermelho.

A exposição permanente da África é o ponto alto da visita. Ali está, logo no hall de entrada, a reprodução de uma manada de elefantes, com direito a líder, mães, pais, adolescentes e filhotes. Turistas (chineses, japoneses e coreanos na maioria) tiram fotos de frente, de lado e até de cima da manada, postados no mezzanino.

Adiante, tem a cena de uma majestosa família de leões, descansando na sombra e contemplando os domínios da savana, hoje seu reino perdido. Depois, um bando de hienas pintadas, chacais e abutres disputando a carcaça de uma zebra. Gnus, leopardos, rinocerontes, hipopótamos, guepardos – cada um no seu quadrado. Além, um bando de mabecos (cães selvagens africanos) parece farejar a caça que desfila adiante, num por-do-sol de tirar o fôlego. Cenas do ciclo da vida congeladas no tempo.

Há cenários do mundo inteiro. E aqui e ali, podemos ver os nomes dos filantropos que doaram suas coleções de animais empalhados para o Grande Museu. Está escrito filantropos, mas na verdade foram caçadores. Seus nomes pomposos, de famílias tradicionais europeias e norte-americanas, são a assinatura de seus crimes em série contra a Natureza.

O Grande Museu é a glória dos empalhadores, dos taxidermistas. Para muitos turistas, é o contato mais próximo com o que restou do mundo depois que ele foi tomado pelas selvas de concreto. Feliz daquele que ainda pode ver no quintal de casa borboletas de dia ou vagalumes à noite…

Ao caminhar aqui no Grande Museu, se você apurar os ouvidos, poderá ouvir sussurros. São os ecos da fauna que não volta mais.

Olhe com atenção nos olhos de vidro dos animais imortalizados nos aquários. Repare bem: eles te acompanham. De um lado para o outro, de um lado para o outro, para onde quer que você vá, num movimento sem fim…

Você pode não ter mais pelos na nuca como eu, mas mesmo assim, com certeza, você vai senti-los como fantasmas. Eles vão se eriçar.

*Bob Dog visitou o American Museum of Natural History, em NY, EUA, a convite do PQP

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