A vida de Bob –38 – A Ilha*

A Vida de Bob
por Enilton Rodrigues

A vida de Bob –38 – A Ilha*

Para a maioria, a definição de ilha é: “uma porção de terra cercada de água por todos os lados”. Mas pra mim a ideia de ilha nunca mais foi a mesma, desde o encontro que tive com um estranho cão que encontrei num píer de Key Islands, Miami, numa viagem recente.

Ele latia quase como um cão, mas era praticamente pelado. Tinha um focinho parecido com o de um cão, mas só comia peixes. Era bem maior e mais gordo que um cão, e quando andava pelo cais era bem desajeitado, com nadadeiras no lugar das patas, mas dentro d’água tinha uma agilidade espantosa. Só depois eu ficaria sabendo que Harold era, na verdade, uma foca.

Harold notou minha curiosidade e veio puxar assunto. Para ele, parecia bem natural dialogar com um cão, mas foi só eu dizer que era do Brasil para que ele passasse a me olhar com admiração. Foi aí que Harold começou a contar a espantosa lenda da Ilha de Hy Brazil, onde ele disse que nasceu.

“Há milhares de anos, a Ilha de Hy Brazil era a única terra firme do mundo. Não havia outras ilhas ou continentes; havia apenas Hy Brazil, cercada de um vasto mar coberto por espessa neblina.

Naquele tempo, eram doze tribos, doze reis e doze palácios, onde eram realizados sacrifícios em honra aos doze deuses: doze escolhidos de doze diferentes povos do céu. Esses doze deuses formavam um Conselho criado para proteger mundos com vida inteligente, sem interferir com o desenvolvimento desses povos até o dia em que eles tivessem condições de subir sozinhos até as estrelas.

Mesmo com o dobro do tamanho dos homens, esses deuses caminhavam pela Terra e um deles, Bei, até casou-se com uma humana. Só que outros deuses do céu, com inveja dos doze que eram adorados pelos povos de Hy Brazil, desceram das estrelas e tentaram roubar a ilha dos doze.

Diziam que era inveja, mas como toda verdade tem pelo menos duas versões, outros diziam que os doze tinham desrespeitado a lei de não interferência e precisavam ser punidos.

O que interessa é que esses outros deuses iniciaram uma grande guerra em Hy Brazil. Para os povos da Ilha, começava um longo período de sofrimento. Um martelo arremessado por um deus era capaz de matar mil lanceiros de uma vez. E assim as doze tribos foram dizimadas durante as batalhas.

Por isso, os doze deuses, que tanto amavam Hy Brazil, deram às doze tribos doze tesouros. Cada tesouro devia ser guardado num castelo e a simples presença deles impediria a ação das armas dos deuses, protegendo a gente simples da grande ilha.

Não eram tesouros feitos de pedras preciosas, de ouro, de prata ou platina. Se esses dispositivos de proteção fossem objetos extraordinários, eles teriam chamado a atenção dos outros deuses, que adivinhariam sua finalidade e certamente os tomariam.

Por isso, os deuses deram aos doze povos objetos aparentemente comuns, ordinários: um jarro, um cesto, uma foice, um cabresto, uma faca, uma carroça, um chifre, uma pedra de amolar, uma pele de urso, um mocassim, um prato e um colar de guerreiro.

A única recomendação dos deuses era que os presentes fossem preservados em lugar seguro e que fossem venerados. Em troca, além da proteção, cada tribo poderia usar o seu presente para se comunicar com seu próprio deus. Tinham direito a convocá-los apenas uma vez por ano, mas essa convocação conferia às tribos alguma proteção enquanto durasse a terrível guerra dos deuses.

Essa situação ficou estabilizada durante algum tempo, até que, movido pela saudade, Bei teve a ideia de oferecer à sua amada uma tina sagrada. Essa tina tinha o poder de deter o envelhecimento humano. Tudo o que a bela mulher tinha a fazer era encher a tina com água e mergulhar nela para recuperar sua juventude. Dessa maneira, ela poderia caminhar ao lado de seu amado para sempre, no auge de sua beleza intocada.

Mas assim que as outras tribos descobriram por que, após tantos anos, a preferida de Bei não envelhecia, ficaram com ciúmes desse favorecimento. Os tesouros eram roubados com frequência. Assim começaram as guerras de Hy Brazil – e a guerra entre as doze tribos em terra refletiam as batalhas entre os deuses no céu.

Os seres celestiais demoraram a intervir na guerra tribal, porque para eles, o tempo tinha outro andamento: cada dez de nossos anos não passavam de alguns dias para eles.

Irados ao descobrir com o que acontecia em sua amada ilha, os deuses anularam sua proteção. E para completar a desgraça das doze tribos, quando Bei viu sua amada tão velha e maltratada, pois tinha sido privada dos poderes da tina sagrada, rogou uma maldição à raça humana.

E sem qualquer proteção, este foi o fim de Hy Brazil. Atingida por armas titânicas, ela submergiu e não pode mais ser vista nem lembrada pelos humanos. Ficou entregue às brumas do esquecimento, em algum ponto do Atlântico Norte, entre a Grã-Bretanha e a América do Norte, debaixo de toneladas de oceano.

Poucos, como eu, sabem sua localização exata, já que a Ilha onde nasci emerge apenas uma vez a cada sete anos, durante duas escassas horas. Para os marinheiros, Hy Brazil é uma miragem.”

– Mas o Brasil de onde eu venho não é uma ilha e nem emerge do mar uma vez a cada sete anos! O Brasil de onde eu venho é um país bem grande; é quase um continente – esclareci.

– Então existe um outro lugar chamado Hy Brazil, Bob?

– Não, meu amigo. O nome do meu país é só Brasil, sem Hy…

– Xi, acho que estou desatualizado! Mas, em todo caso, se um dia você quiser visitar minha Ilha, é só avisar. Estou indo pra lá agora com a minha companheira. Ela vai ter filhote e eu quero que ele também venha ao mundo em Hy Brazil.

Ouvimos latidos. Era uma fêmea de foca chamando.

– Harold! Harold!

– Hora da partida… Bye bye, Bob, my friend!

Bye bye, Harold!

Fiquei observando a dupla nadando e saltando nas águas de Key Islands, fazendo farra um com o outro, até o horizonte. É cada figuraça que me aparece…

 

* O Colunista viajou aos Estados Unidos a convite do Pet que Pariu.

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