A vida de Bob – 39 – O mundo, animal!

A Vida de Bob
por Enilton Rodrigues

A vida de Bob – 39 – O mundo, animal!

Esse meu costume de observar as pessoas começou há muito tempo. Na época, como os finais de semana do dono da casa eram dedicados a documentários sobre a vida animal na TV e ninguém me levava para passear, decidi que – por que não?!? – esse seria o meu hobby.

De cara, notei que era muito mais fácil entender a natureza animal do que a chamada “natureza humana”. Aparentemente, ser biólogo é mais simples que ser psicólogo. Afinal, deve ser muito mais fácil observar nossos principais movimentos no ciclo da vida – nascimento, alimentação, migração, corte, acasalamento, reprodução, morte – do que a complicada vida em sociedade.

Entender os rituais que vocês adotam na convivência diária e suas motivações individuais é bem mais complexo. No discurso, parece tudo muito claro; na prática, são centenas de sinais e ações bem difíceis para um observador decifrar.

Decidi que, se existia a profissão de “biólogo”, eu seria um “homólogo”, só que às avessas. E do meu cantinho, eu via tudo. Aquele condomínio era uma galeria de personagens. Cada qual com seus próprios sonhos e manias.

E pra ser bem franco, se pusessem uma lona por cima, virava um circo; se pintassem de branco, seria um hospício.

O sujeito da casa da frente tinha o costume de furtar. Chegava a acordar mais cedo, não por causa do trabalho ou porque era bom para a saúde, mas sim para furtar os jornais dos vizinhos. Não que estivesse passando por dificuldades financeiras; aparentemente seu consultório psiquiátrico ia bem, obrigado.

Então, bem cedinho, para não chamar a atenção de ninguém, ele praticava um revezamento no furto de jornais, “pegando emprestado” o jornal de uma casa diferente por dia. Piscava um olho gaiato pra mim sempre que fazia isso, mas como sabia que eu seria uma testemunha muda, não estava nem aí quando eu latia pra ele.

Também gostava de gato. Não o gato animal! Nesse caso, “gato” no sentido de roubo de energia da Light, mesmo. Era um Psiquiatra; então devia gostar da adrenalina que vem com a prática da contravenção, do medo de ser pego a qualquer momento com a boca na botija. Digo isso porque já senti isso quando abria a geladeira escondido. Mas aquele médico era viciado naquilo. Era o que se chamava na época de “amigo do alheio”.

Se pusessem uma lona por cima, virava um circo; se pintassem de branco, seria um hospício.

Tinha também aquela senhorinha que passava as manhãs, as tardes e os finais de semana varrendo o quintal. Parecia tão inofensiva; mas eu vi a capacidade dela de criar intrigas entre vizinhos, de jogar uns contra os outros.

Era metódica. Tratava-se de uma estrategista no melhor estilo “César”. Sua lógica vinha da Roma antiga: a tática predileta era “dividir para governar”. Como era a mais antiga moradora da vila, o pequeno condomínio, pelo menos pra ela, devia ser mais dela do que dos outros. Por causa de seus pequenos jogos de poder, alguns moradores passaram anos olhando-se com desconfiança, sem trocar uma única palavra.

Se pusessem uma lona por cima, virava um circo; se pintassem de branco, seria um hospício.

A filha da outra vizinha tinha como costume chamar de “favelados” cada novo vizinho que chegasse à vizinhança. Por mais que os novos moradores tentassem ser simpáticos, ela sempre enxergava defeitos nas pessoas. Curioso ela nunca ter parado para pensar que, se todos à sua volta eram “favelados”, o que ela poderia ser, além de mais uma “favelada”?

E embora ela adorasse chamar os vizinhos de “favelados”, educação jamais foi seu forte. Quanto mais humilde era a pessoa a cruzar seu caminho, maior a quantidade de desaforos que ela se mostrava capaz de lançar. Humilhou zeladores, motoristas, entregadores de restaurante, faxineiras de casas vizinhas.

E como um hipopótamo cheio de orgulho de sua agressividade territorial, só ficava feliz após uma boa briga. Parecia feliz, deliciada por encontrar um novo alvo para essas descargas de puro mau-humor.

A moça também se divertia quando contava, por exemplo, que quando o pequeno cão de um vizinho depositou sua caca na frente de sua casa, ela pegou o material, foi até o portão do dito cujo e jogou tudo lá dentro, mirando bem na porta de entrada. As ocasiões em que contava essas “bravatas” era uma das poucas em que era possível vê-la sorrir.

Quanto ao restante do tempo, ela dedicava sua agenda vazia a brigar com os cães dos vizinhos, que latiam, e a fiscalizar de perto o trabalho do zelador, que nunca soube o significado de “assédio moral” e acabou entrando em depressão.

Se pusesse uma lona por cima, era um circo; se pintasse de branco, era um hospício.

Tinha também aquele senhorzinho nordestino. Diziam que ele era praticante de “aikidô”. Tinha sempre dor nas costas, dor nos joelhos, dor nos tornozelos; estava sempre passando mal. Mas sempre que surgia alguma “cabrita” na área (era como ele chamava mulheres jovenzinhas), seja visita, empregada do vizinho ou até amiga de sua própria filha, é como se um milagre acontecesse…

E o senhorzinho se transformava em galã da meia-idade. A postura corporal mudava, a tal ponto que você ficaria se perguntando para onde teria ido aquele homenzinho humilde e curvado.

Era só ver uma “cabrita” chegando e… batata! Ele ganhava estatura, tornava-se adepto da geração saúde, ficava todo espigado. Aquela barriga indecente sumia como que por encanto! Para impressionar as mocinhas, claro que ele estava sempre pronto a soltar algum gracejo espirituoso e de duplo sentido.

Se pusesse uma lona por cima, era um circo; se pintasse de branco, era um hospício.

Havia também a “menina velha”. Essa era uma garota má, com a idade mental de oito anos de idade, no corpo de uma mulher de 34 anos, que ainda morava com a mãe e fazia trabalhos esporádicos. Ela dizia que não precisava trabalhar e mantinha uma pose de madame, dedicando todos os horários livres ao salão de beleza.

Poucos sabiam, no entanto, que ela só tinha uma vida ociosa porque era sustentada pela pensão de um militar, com quem se casou às pressas e se separou mais depressa ainda, vá se saber por que motivo. Ou talvez porque gostasse mesmo era de viver sozinha, sempre de óculos escuros, com sua visão sombria do mundo, remoendo ressentimentos contra tudo e contra todos.

Se pusesse uma lona por cima, era um circo; se pintasse de branco, era um hospício.

O condomínio onde morei era uma galeria de personagens. Mas justiça seja feita: tinha muita gente boa por lá, que guardo com todo carinho em meu coração de cão. Qualquer dia, volto a falar de alguns dos meus antigos vizinhos, que nunca mais vi desde que fugi daquela casa.

Até hoje, não perdi o gosto pela observação do homo sapiens, a espécie mais complexa e contraditória do planeta. Ainda bem que não sei falar; pelo menos, não ainda. Senão, a essas alturas com certeza vocês estariam me chamando de “cachorro fofoqueiro”!

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