A vida de Bob – 41 – Armadilha para curiosos

A Vida de Bob
por Enilton Rodrigues

A vida de Bob – 41 – Armadilha para curiosos

O ser humano é um bicho curioso. Adora um buraco de fechadura, em busca de uma revelação, de algo exclusivo, que só ele viu e, claro, que vai fazer questão de contar pra todo mundo logo depois, porque afinal, o momento mais brilhante e atraente da curta vida de um segredo é o momento da revelação, da divulgação, do “vou espalhar pra geral”.

Já reparou que a maioria adora esticar o pescoço para olhar o quintal do vizinho? Então? Não dizem que a grama de lá é sempre melhor?

Mais fácil que viver é ver o que acontece com os outros. Quem sabe observando as bobagens que os outros fazem, as besteiras que os outros cometem, os escândalos (políticos ou não) em que os caras se metem, você não repete os erros alheios, não quebra a cara num esporte radical, não cai na besteira de confiar em falastrões pouco confiáveis?

Quem sabe vendo os exemplos que estão por aí, você não perde a namorada porque mandou mal ou deixou de entender a indireta que ela deu? Quem sabe da próxima vez você não será pego com a boca na botija em uma escuta telefônica porque foi imprudente ou inocente, não é mesmo? Não repita os erros, principalmente os erros dos outros!

Nos últimos tempos, o Brasil virou uma grande novela. E essa novela de mau gosto está com a maior cara de “últimas semanas” – aquela parte em a narrativa arrastada fica mais ágil e tudo acontece.

O grande barato é que personagens do “núcleo rico” dessa grande novela têm aparecido com as cabeças cobertas pra evitar as câmeras e com algemas nas mãos, nas chamadas “conduções coercitivas”. O “núcleo pobre” da novela, ou seja, o resto do país, tem se deleitado, deitado e rolado com essa situação – e isso vale para todas as correntes políticas. A lavação de roupa suja não para, porque a pilha de cuecas fedorentas é grande demais…

“A gente paga muito caro todo dia pra ver essa novela! A conta é muito salgada, mas pelo menos agora tá ficando divertido!”, disse outro dia uma vizinha. Falava dos impostos que sugam o sangue do brasileiro, mas parecia até que estava falando da conta da TV a cabo…

Voltando ao assunto: alguém definiu a televisão (e essa definição serve como uma luva para a Internet) como uma janela para o mundo. Aí depois alguém aperfeiçoou dizendo que quanto mais indiscreta essa janela, melhor.

Tá. Até aí tudo bem. O que é indiscreto é interessante para o ser humano. A curiosidade tá no sangue. Mas vem cá: como é que um ponto de vista pode ser indiscreto se o que é mostrado é cuidadosamente selecionado para ser visto? De indiscreta, essa janela não tem nada. Isso sempre foi conversa para boi dormir, embromação.

Mas não é de hoje nem de ontem que essa mania de ficar ligado nas “caixinhas” de entretenimento fisgou os seres humanos de jeito. Quando isso começou mesmo? A curiosidade já estava lá, nos circos de aberrações de antigamente; mas naquela época ainda era tudo “ao vivo”.

O dono da casa disse que essa “fissura por uma caixinha” vem desde os tempos do rádio. Quando ninguém tinha rádio, a não ser aquele morador do lado, era ele “o cara”, a sensação da vizinhança! Aonde todo mundo ia quando só dava pra acompanhar o que acontecia na Copa do Mundo de Futebol de 1958? Todos iam pro quintal do sujeito, ouvir aquelas caixinhas de onde saíam vozes, contando a saga de Didi, Vavá, Pelé! Tinha até transmissão em praça pública e tudo acabou virando um carnaval só!

A mesma agitação, o mesmo frisson, voltou a acontecer muito tempo mais tarde, com as primeiras transmissões de TV. Da primeira caixa mágica, que hipnotizava a gente com seres vivos se mexendo lá dentro, eu lembro bem! Afinal, sou um cachorro que atravessou gerações.

A TV era o grande chamariz da casa, “por coincidência” bem nos horários dos programas mais populares, como os programas de auditório. Final de novela, então, era uma comoção na vizinhança! E aí era possível ver dezenas de pessoas da vizinhança, espremidas na mesma sala, e ainda crianças apinhadas nas janelas, se espremendo pra ver o que ia acontecer com o mocinho, com a mocinha e, principalmente, claro, com os vilões!

Ah, o fetiche dos vilões… Quem matou quem? Por quê? Quem roubou o quê? Para quê? De que jeito? Será que o criminoso vai se safar, vai sair sem pagar a conta? Será que vai ter perdão para o ladrão que roubou o ladrão? Quem vai responder à pergunta de um milhão de dólares?

Felizmente as gerações mais novas já perceberam que a novela não é “a vida como ela é”. A não ser por algumas raríssimas exceções, elas não passam de coletâneas de comportamentos e diálogos cada vez mais distantes da realidade.

Mas as gerações mais novas têm a sua própria versão da mesma armadilha: elas praticamente já nascem com I-pads, tablets e celulares nas mãos. Quase nascem sabendo mexer naquelas coisas.

Mais tarde, já maiorezinhos, ficam viciados em jogos que simulam a urgência da vida. No jogo, você corre contra a morte. Mas se você morrer numa missão, sem problemas: no jogo, você é quase como Deus ou o filho dele; sempre é possível ressuscitar para a próxima partida. Transcendental, não é mesmo? E tudo isso dentro daquelas caixinhas!

E de pouco tempo para cá, tem também as redes sociais, onde todo mundo fica sabendo da vida de todo mundo. E não precisa mais esticar o pescoço pra ver a grama por cima do muro, nem disputar espaço com os amigos pra olhar pelo buraco da fechadura. Agora, é tudo ao contrário: todo mundo abre a porta da própria casa para escancarar suas intimidades. E o controle sobre o que é mostrado está cada vez menor.

Eu sei que já disse isso, mas não custa repetir: “O ser humano é um bicho muito curioso”. Sempre foi!

O dono da casa me põe pra assistir aqueles documentários sobre a vida selvagem. E já me disse que os americanos (sempre eles…) já inventaram uma televisão para cachorros. Para cachorros, gatos e afins. Não, não se trata daquelas assadeiras de frangos que a gente vê na frente das padarias, com aqueles frangos sensualmente dourados, girando e pingando gordura – schlep… isso tá me desconcentrando…

Enfim… Pelo que ele disse, as TVs para pets ficam mostrando imagens relaxantes ao longo do dia, para acalmar os bichos durante a ausência de seus donos. Na boa, eu acho que não vou gostar da novidade.

E como, em vez de passear, de dar uma volta na praia comigo, o pessoal da casa só quer papo com o celular… Acho que prefiro continuar assistindo aos velhos documentários mostrando a savana africana, o cerrado brasileiro, a tundra e os meus primos, os lobos das estepes do hemisfério norte; ou a mesmo vida nos oceanos.

Assim eu posso fazer de conta que o mundo lá fora não está cada vez mais enterrado em concreto e asfalto. E que a vida não está cada dia mais aprisionada “dentro das caixinhas”. Vou abstrair, usar a imaginação, tudo bem! Não é isso que todo mundo tá fazendo hoje em dia?

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