A vida de Bob – Alma de marujo*

A Vida de Bob
por Enilton Rodrigues

A vida de Bob – Alma de marujo*

Você já viu uma miragem? Por incrível que pareça, eu já… Não como aquelas que a gente vê nos filmes, que se desfazem no ar. Não!

Eu vi alguém muito importante do meu passado, caminhando a pouco mais de 50 metros adiante, bem na rua onde moro. Meu coração começou a bater tão forte, que meus ouvidos pareciam prestes a estourar! Minha explosão de alegria em direção a uma das memórias mais felizes da minha vida fez cair estatelado quem me acompanhava no passeio.

– Bob, seu maluco! O que foi que deu em você?!?

Não pude explicar quem eu tinha visto, claro. Ainda não sei falar. Mas como seria possível ver o Sargento andando ali, logo adiante, se ele já não estava mais entre nós há anos?

Memórias, quantas memórias de vidas passadas…

O Sargento me comprou numa grande feira ilegal de animais que funcionava aos domingos, em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense. Nem me pergunte como eu fui parar lá! Não lembro.

Lembro apenas que ele queria comprar um macaco prego, mas o vendedor cobrou tão caro pelo bicho, que o acordo não saía. Porém, quando o Sarja me viu na gaiola vizinha à do macaco, foi simpatia de cara! E ele disse que só pagava o que o vendedor queria se eu fosse incluído como brinde na transação.

Todos ficaram felizes: o vendedor, por se livrar de mim; eu, por me livrar do vendedor e o Sarja por levar dois bichos pelo preço de um! O macaco? Esse estava indiferente a tudo e já explico por que…

No longo caminho de volta para Pindaíba do Sul, ia o Sarja cantando um sambinha de Bezerra da Silva, todo orgulhoso com seu macaco-prego e comigo, seu parrudo mas ainda novinho e promissor cão de guarda. Tudo o que ele queria era chegar em casa e mostrar as novidades para a mulher e os seis filhos.

Ao descer do ônibus, tirou o macaco da sacola e o pôs no ombro direito. Eu ia ali, trotando do lado esquerdo, olhando admirado as cores daquela paisagem ainda inédita. Mas um berro do Sarja me deu um baita susto:

– Macaco-desgraçado-f.d.p.!!! P.q.p.!!!!

Foi uma surpresa para nós dois. O macaco-prego, que antes só parecia querer cochilar, quase arrancou a orelha direita do Sarja. E fugiu como um raio para as árvores de uma chácara próxima. Dali, sem dar tempo sequer a um esboço de perseguição, ganhou os galhos de outra árvore. E depois de outra e mais outra, até sumir de vez.

Com a orelha ferida e o orgulho sangrando, lá se foi o Sargento até uma farmácia próxima. Tomou pontos no lugar da mordida e ouviu do farmacêutico, um experiente comprador de curiós na feira, uma teoria que podia muito bem explicar o que aconteceu:

– O pessoal da feira dá cachaça aos bichos brabos pegos no mato, pra que pareçam mansinhos! Você não é o primeiro nem o último a cair nesse golpe!

Sabendo que não seria nada fácil reencontrar o trapaceiro da Feira, o Sarja engoliu a ira e voltou pra casa. Obviamente, sem contar a ninguém por que aquela orelha tinha levado tantos pontos e estava inchada, parecendo uma couve-flor!

E foi assim que nos conhecemos.

O Sargento sofria de surdez progressiva. Muito tempo depois, já no fim da vida, uma médica descobriria que a Marinha do Brasil havia produzido uma geração de surdos progressivos. Os motivos: os exercícios de tiro sem proteção adequada e os meses embarcados nos conveses inferiores dos grandes navios de guerra.

Imagine meses a fio, com o ruído de gigantescos motores a diesel, dia e noite, reverberando nos imensos cascos de aço! Um dia, essa atividade insalubre cobraria um alto preço a cada um daqueles homens a bordo, do comandante ao marinheiro-aprendiz.

Quando o Sarja voltava de viagem, era uma festa na casa! Lembro bem de como era uma felicidade tê-lo de volta! Ele gostava de irritar a mim e aos pequenos da casa, nos arranhando com os espetos daquela barba por fazer. Além disso, tinha sempre aquele inconfundível cheiro de nicotina, alcatrão e álcool, muito álcool…

Dependendo do número de doses que bebia no botequim da esquina, agia como se fosse milionário. E não faltavam “amigos” para os dias em que o Sarja se tornava super generoso com toda a vizinhança.

Em dias como esse, ele ficava com voz pastosa e boca de borracha. E não foram poucas as vezes em que acabou sendo sumariamente escanteado pela esposa, pequena porém firme como uma rocha. Desolado, lá vinha o Sarja dormir comigo no quintal.

– Pois é, Bob, só você me entende…

Ah, o Sarja… A casinha de cachorro era pequena demais para nós dois! Nem mesmo um cão como eu aguentava o bafo dele. Mas nessas noites, pelo menos, eu não ficava sozinho, pra variar!

Meu camarada tinha uma legítima alma de marinheiro: em terra, era estabanado como um peixe fora d’água e morria de saudades do mar; no imenso oceano, ficava nostálgico, com saudades da mulher, dos filhos e até do cão. Em casa, todos passávamos por longos períodos de espera por ele.

Era um sujeito muito brincalhão, sabia tirar humor de tudo e tinha apelido para todos, mas quando ficava nervoso, era melhor sair de perto! Possuía as mãos grandes e uma voz poderosa, de dar medo a um cão adolescente. Mais perto da aposentadoria, conquistaria o respeito dos filhos. Mas por muito tempo, o que ele inspirava era um medo reverente. Em mim e na garotada.

Como bom militar, ele mantinha uma disciplina férrea na casa. E chamava cada um pela ordem de nascimento. Do alto da laje, chamou o caçula, então com seis anos.

– Número Seis, vá chamar o Número Três! Mande ele trazer a chave de grifo que eu tenho que consertar a caixa d’água!

O pequeno foi correndo e voltou indeciso, de mãos vazias, porque o mais velho, um adolescente de treze anos, estava jogando bola e não queria perder tempo com bobagens ditas por um pirralho insignificante.

– Número Seis, já fez o que eu mandei?

– Já sim, senhor, pai!

– Então cadê o Número Três com a chave que eu pedi?

– Eu falei da chave. Mas aí ele me disse: “Que chave?”

– “Te safe”?!? Ah, danado!!! Peraí que ele vai ver uma coisa…

Na gíria da Marinha, “te safe” era como dizer “te vira”. Para surpresa do pequeno, o Sarja desceu da laje como uma Scania desgovernada. Não deu ao Número Seis nem tempo nem chance para qualquer explicação. Mais uma vez a surdez o faria cometer uma injustiça. Eram tempos em que surrar os filhos diariamente era a norma. Mas a partir daquele dia, o Número Três pensaria duas vezes antes de tentar enrolar a “Autoridade” numa próxima ocasião.

Assim era a rotina na casa do Sarja. Juntas, aquelas oito pessoas e o cão da casa viviam uma vida sem luxos, mas rica em situações hilárias, quase sempre envolvendo aquele sujeito gordito, de riso solto e com uma pequena calva no cocoruto.

Dali eu só sairia algum tempo depois de um derrame fulminante que nos privou do velho Sarja. Eu era o xodó daquele cara, mas não tinha qualquer utilidade para o resto da família. E afinal, era mais uma boca (enorme, por sinal) para alimentar, nos tempos bicudos que se aproximavam.

Memórias, quantas memórias de vidas passadas… Vida vendaval!

Depois de muito esforço, consegui chegar até o sujeito cuja carequinha e uma pança proeminente tanto me lembravam o velho Sarja. Mas que decepção! Olhando de frente, ele não tinha nada a ver com o meu grande parceiro. E não tinha sequer o cheiro de nicotina, alcatrão e álcool…

– Desculpe, amigo! Parece que o Bob cismou que o conhecia, não sei por que… Esse cachorro é doido!

E voltamos para casa. Matutei o dia inteiro em busca de um significado para aquela situação.

Não estava entendendo nada, até que a reunião de toda a família e o cheiro da ceia me fizeram descobrir que aquele era o dia de Natal… O dia do aniversário do velho Sarja!

Pois é. De vez em quando, nossos amigos mandam lembranças, mesmo que estejam muito, muito longe. Só precisamos ficar mais atentos aos detalhes – e entender o recado…

 

*Dedicado a meu pai

comentários