A vida de Bob – O 13º filhote!

A Vida de Bob
por Enilton Rodrigues

A vida de Bob – O 13º filhote!

Primeiro diálogo entre meu pai e minha mãe:

– Qual é o seu nome?

– Cosette!

– Que nome feio…

Resultado desse papo que tinha tudo pra dar errado? Eu!

Contando, ninguém acredita. Mas foi assim que meus pais se conheceram. Essa foi a minha origem. E aqui estou eu, o 13º filhote. Eu, o último filhote. O diferente! Um vira-latas no meio de uma ninhada de cães de raça de alta estirpe!

Mas como isso foi possível? Simples. Minha mãe já estava prenha quando conheceu meu pai. Sim, minha mãe pariu uma ninhada com DOIS parceiros diferentes! Os meus irmãos foram programados; eu nasci por acidente. Fui consequência de uma arte do meu pai, um galanteador às avessas.

Minha mãe era aristocrata, filha de uma linhagem importada de dogs argentinos, uma raça de grande porte. Vencedora de exposições, ela só poderia ter contato com um macho campeão e que tivesse pedigree. Ela foi reservada a um gigante que se tornaria o pai dos meus irmãos. E o conheceu sem muito entusiasmo, diga-se de passagem. Até hoje, pouco fala dele.

Boas lembranças, mesmo, ela guardou do meu pai. Naqueles dias, ninguém contava com o acaso… E o acaso, que no caso era meu pai, já vinha rondando o quintal de Cosette há algum tempo!

Meu pai: aquele cão sem procedência e pedigree que vivia vagabundando pela vizinhança do canil que vendia cães de raça; aquele vira-latas que sempre ficava se exibindo e se insinuando para Cosette do lado de fora do portão.
No que dependesse da vontade de seus donos, minha mãe jamais poderia conhecer meu pai. E os empregados eram orientados a espantá-lo pra bem longe. Mas quanto mais tentavam mantê-lo afastado, mais persistente ele se tornava!
Havia um muro alto, um portão reforçado, mas o cio é como a água: por mais que você impermeabilize o telhado, mais cedo ou mais tarde ela se infiltra e descobre seu próprio caminho.

Ela era alta, ele era baixinho. Minha mãe era represa, meu pai era rio. Apesar de todas as diferenças, meus pais deram um jeitinho… e a enchente rolou!

Assim, pouco tempo depois, ali estava eu melado de placenta: o último filhote da ninhada. Aquele que cresceria menos, aquele que sempre ficaria pra trás na disputa pelas tetas da mãe, o mais zoado…

– Bob, você é tão feinho…

– Você é muito diferente!

– Ah, ele é diferente porque foi achado na lata do lixo!
(Risadinhas a granel)

– Mãe, é verdade?
(Suspense)
– Isso é verdade, mãe?!?

– É!
(Gargalhada geral)

A brincadeira de mau gosto ainda durou um bom tempo… Até que um dia minha mãe resolveu me contar quem foi meu pai. Pai que, por sinal, tinha sumido no mundo, tão de repente quanto havia aparecido, deixando pra trás apenas o cheiro da liberdade que minha mãe não tinha.

Assim que ela me contou por que eu era tão diferente dos meus irmãos, a vida se tornou bem mais simples. Sou um cão sem valor no mercado, mas isso não me preocupa nem um pouco. Ser diferente provoca alguma solidão no começo, mas isso me ajudou a crescer.

Por isso é que eu nunca estive de verdade dentro de nenhum bando. Por onde quer que eu tenha andado na vida, me sentir tolerado sempre foi suficiente.

Cresci e ganhei forças cercado de companheiros; alguns, chamei de amigos. O tempo foi meu irmão mais velho, que me ensinou a enganar minha grande inimiga: a sensação de vazio.

Afinal de contas, se a vida te ensina a não confiar cegamente em qualquer um que você encontre pelo caminho, que tal confiar um pouco mais em você mesmo?

Hoje prezo: boa comida, sol de outono, pequenos prazeres, ser capaz de me emocionar, ter fé no futuro, fazer
planos, olhar nos olhos de quem amo… e lamber meus filhotes em seu primeiro choro!

Sim, espalhar meu pedigree! Isso eu faço com o maior gosto, continuo praticando muito por aí!

Como um legítimo vira-latas, tenho em mim um pouquinho de cada cão existente desde o princípio dos tempos. Já vivi mais vidas que pude contar… e vou me perpetuar através de meus filhotes, até o fim do mundo!

Sou o 13º filhote. Minha mãe já estava prenha quando fui concebido. Peguei carona naquela barriga. E nasci quando tinha tudo pra não ter nascido. Por isso, cultivo sempre bons pensamentos. A colheita, não há dinheiro que pague.

A vida é ou não é um milagre?

comentários



Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *